As histórias de Maurizio, 70 anos, e de Antonio, 73, com Gigliola, 68, trazem à tona uma verdade simples e poderosa: a terapia pode ser um espaço de transformação em qualquer idade.
"As terapias funcionam em toda a vida adulta", afirma Pim Cuijpers, professor de psicologia clínica da Universidade Vrije Amsterdam. Para Maurizio, a busca por entender enxaquecas que o acompanham desde a infância tornou-se também uma viagem interior, onde o processo terapêutico ganhou significado próprio.
Antonio e Gigliola recorreram à terapia para fortalecer o vínculo e dialogar de forma mais aberta, descobrindo leveza e novas formas de convivência.
Esses relatos ajudam a desconstruir a noção de que a terapia é exclusiva de jovens. Estudos recentes indicam que idosos podem extrair benefícios semelhantes, abrindo espaço para uma saúde mental mais inclusiva ao longo de toda a vida.
Barreiras que ainda precisam cair
A prática terapêutica já mostrou resultados consistentes, mas o acesso não acompanha a necessidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que cerca de 14% das pessoas com mais de 70 anos vivem com transtornos mentais, com 17% de todos os suicídios ocorrendo nessa faixa etária. Nos Estados Unidos, um estudo de 2024 mostrou que apenas cerca de 4% dos adultos com 65 anos ou mais receberam atendimento psicoterapêutico, frente a 12% de jovens de 18 a 24 anos e 8% de adultos entre 35 e 64.
Nesse cenário, não há evidência de que a terapia seja menos eficaz com a idade. "As terapias funcionam em toda a vida adulta", reforça Cuijpers. Em revisões recentes, ele também destaca que há uma quantidade considerável de pesquisas com pessoas acima de 75 anos, sem indicar diferenças na eficácia entre faixas etárias.
A autoimagem de envelhecer pode se tornar um obstáculo — o etarismo —, muitas vezes internalizado pelos próprios pacientes. O medo de buscar tratamento pode vir acompanhado da crença de que questões de saúde mental seriam uma consequência inevitável do envelhecimento. Ainda assim, a transformação positiva é possível em qualquer fase da vida.
A força da comunidade terapêutica
Pesquisas de 2025 sugerem que os efeitos mais expressivos aparecem em intervenções em grupo, justamente por oferecerem convivência e troca estruturada. A ideia de que não estamos sozinhos diante das dificuldades ganha força quando pensamos em terapia como uma ponte para reconectar-se consigo mesmo e com o mundo ao redor.
Maurizio cita que a terapia o acompanhou em momentos cruciais: a separação, conflitos com os filhos e a transição rumo à aposentadoria, quando foi preciso aprender novas formas de convivência. "Nunca achei que pudesse ser tarde demais para alguma coisa", ele afirma, abrindo espaço para que outros se vejam nesse caminho de reinvenção.
Caminhos práticos para quem pensa em começar
Várias opções podem ser consideradas, dependendo das necessidades de cada pessoa:
- Terapia cognitivo-comportamental (TCC): foca em identificar e modificar padrões de pensamento prejudiciais.
- Terapias psicodinâmicas (psicanálise): enfatizam como experiências passadas moldam emoções e comportamentos presentes.
- Terapia familiar: trabalha questões que atravessam o indivíduo e afetam as relações.
- Terapia em grupo: oferece suporte mútuo e reflexão compartilhada.
- Na rede pública local, busque CAPS, UBS e UPA 24h para suporte imediato.
- Consulte o Mapa da Saúde Mental para encontrar atendimentos gratuitos em todo o Brasil.
Essas opções podem harmonizar com abordagens de alinhamento psicoenergético e com uma visão que vê a saúde mental como parte de um equilíbrio entre corpo, mente e energia vital. A ideia é criar um caminho que respeite a natureza singular de cada pessoa, mantendo a porta aberta para a renovação contínua.
Envelhecer é também renascer
A transformação permanece possível ao longo de toda a vida. Como lembra Rossana De Beni, professora de psicologia, o envelhecimento não é um fim, mas uma fase de mudanças constantes. E, para quem decide buscar ajuda, essa decisão pode abrir espaço para viver com mais presença, propósito e conexão com o que realmente importa.
Maurizio reforça a mensagem: a terapia foi útil em vários momentos, e se transformou em uma prática de cuidado com ele mesmo e com quem ele é hoje.
"A verdade é que mudanças positivas podem acontecer ao longo de toda a vida. Envelhecer, até o último momento, é um processo de mudança."
A trilha entre o cuidado com a mente e o cuidado com o espírito pode ser uma via para uma vida mais equilibrada, onde a coragem de pedir ajuda caminha lado a lado com a prática diária de bem-estar. Se a idade não define a possibilidade de transformação, qual é o convite que você se dá hoje para florescer?Que idade você está vivendo agora pode se tornar o seu novo começo. Qual passo simples você pode dar hoje para acolher a transformação que já pulsa dentro de você?